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Terça-feira, Novembro 21, 2006
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Laroyê, Risério!
Há exatos 53 anos, nascia na Cidade da Bahia, um poeta e antropólogo que hoje figura entre os grandes pensadores da cultura (afro)brasileira, mais particularmente da vida cultural da terra da felicidade. Antonio Risério é o homem, o obá da palavra que, ainda no início dos 90, deu-me o sentido e a compreensão do AFOXÉ, da força que realiza a Bahia e o que nela nasce e provém. Para celebrar a vida do primo, lanço aqui um oriki recriado por ele no livro "Oriki Orixá" (Perspectiva, 95) a partir de originais iorubanos recolhidos por Pierre Verger. E que toque o padê!
ORIKI DE EXU ODARA
Viva Exu Odara
O bamba que zanza pelo campo
O bom de briga que abafa no bafafá
Que bota uma beca batuta
Pra ser porteiro de Deus.
Rei na terra de Ketu
Convida o alinhado e avia uma de leve.
Ele vem pra revirar o Benin.
Laroiê chora lágrimas de sangue.
Faz o torto ficar direito
Faz o direito ficar torto.
Ele tem oitocentos porretes
Cento e sessenta porretes porretas.
Bate bate batá.
Baixote que chega de noite do mercado
Baixote que chega junto
Como a beira, da estrada.
Viva Exu Odara.
riscado por
GEORGE CARDOSO
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6:02 PM
Sexta-feira, Novembro 17, 2006
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Em maio deste ano, o Centro Cultural Casa África realizou no Centro Cultural da UFMG a 2ª edição da Semana Cultural do Senegal, que homenageou o poeta-estadista senegalês Léopold Sédar Senghor. Dentro do evento, coordenei junto com o doutor senegalês Amadou Abdoulaye Diop o seminário "Senghor + Pensamentos e Movimentos da Afro-diáspora". Para substituir o senegalês Ousmane Sane, acabei escalado na mesa que discutiu a vida e obra de Senghor. De bate-pronto, na minha pressa de herança armenguêra, numa tarde conturbada eu lancei no papel as idéias e letras do texto abaixo, que apresentei na mesa do seminário e agora jogo aqui pra vocês, camarás. Afoxé!
A Negr'Arte na Resistência Cultural e Humanitária
George Cardoso*
A vida de Léopold Sédar Senghor pode ser traduzida em dois eixos: o do homem público e político e o do poeta-pensador. No entanto, o laço que liga as duas trajetórias em Senghor é a Negritude, corrente de pensamento que busca reafirmar os valores das civilizações de origem negro-africanas. Mas é preciso compreender que a Negritude senghoriana, além de movimento poético e artístico, significa também um instrumento sócio-econômico e cultural para lutar contra um supremacismo branco, a exploração do colonialismo, do imperialismo e do racismo.
Ao contrario dos outros continentes, pode-se dizer que em África existe um sentimento para além dos sentimentos nacionais. Seria, assim, um sentimento continental, necessário para que os cidadãos das atuais 52 nações africanas pudessem/possam resistir às mazelas preconceituosas do racismo europeu, sofrido por aqueles que traziam sua diferentes origens reveladas nos traços e na pele. Este "sentimento de africanidade" nada mais é que a própria Negritude, sentida e conservada nas consciências, nas expressões e manifestações culturais e sociais, conceituadas a partir dos anos 30 pelo próprio Léopold Senghor, Aimé Cesaire e Leon Damas.
No entanto, o que pode ser considerada a grande sacada de Senghor e seus companheiros foi utilizar com inteligência do poder sensibilizador das artes negras enquanto arma na luta para reconhecer a condição humana e promover o respeito aos africanos e seus descendentes, diante dum processo histórico de opressão européia, que ideologicamente estereotipava estes povos como sendo eles desprovidos de Estado, sem Fé, sem História, sem Filosofia e sem Cultura. A arte negra era para Senghor a lança de combate para sensibilizar e fragilizar o inimigo opressor, o outro - o branco europeu -, para defender o valor das civilizações do mundo negro. Acreditava ele que era preciso "redistorcer" à verdade o pseudo-pensamento eurocentrista, construir uma nova epistemologia de uma cosmovisão africana e afrodescendente em vários âmbitos, seja na política ou nas artes, que expressasse uma voz própria para reconstruir a memória, a soberania e a civilização dos antepassados do velho continente africano.
Assim, no ano de 1966, já legitimamente empossado presidente do Senegal independente do domínio francês, Senghor realiza na capital Dacar o que pode ser considerado como uma das suas grandes obras: o 1º Festival Mundial das Artes Negras, que, para a historiografia mundial, deveria ser considerado o primeiro grande reencontro de negros das nações da afro-diáspora após quatro século de tráfico - ou melhor, do rapto cruel - dos filhos da Mãe-África que foram obrigados na condição de escravos a cruzar o Atlântico e nas Américas foram constituir novos povos.
Este primeiro festival teve representações de dezenas de paises em diversas modalidades: música, literatura, poesia, teatro, artes plásticas, a fim de mostrar ao mundo ocidental a imensa produção cultural e intelectual dos povos negros.
O Brasil, como segundo maior país de população negra no mundo, teve como representantes em sua delegação um grupo de capoeiristas liderados pelo mestre Pastinha, a Estação Primeira de Mangueira, entre outros, e que revelou como líder desta excursão de regresso à terra ancestral o escritor, artista plástico e ex-senador Abdias do Nascimento, que hoje, na altura dos seus mais de 90 anos de idade, é um dos ícones máximos do reflexo da Negritude no Brasil.
Porém, neste primeiro festival, o Itamarati excluiu deste importante evento grandes artistas negros brasileiros, a exemplo do ator Grande Otello. Como repúdio ao desrespeito do governo brasileiro, Abdias escreve ao governo senegalês, à UNESCO e à Sociedade Africana de Cultura ¿ com sede em Paris -, então responsáveis pela organização do festival, uma carta de condescendência aos ausentes da maior nação negra das Américas, que desenha em letras a importância do festival enquanto acontecimento e obra viva e humana para todo o mundo da diáspora negra, em que dizia:
"Irmãos:
A diáspora negra foi o acontecimento mais trágico da história do homem. Fomos arrancados pela violência do coração da África - de nossos deuses, de nossos costumes, de nossos afetos - e vimos habitar o Brasil, Cuba, Venezuela, Porto Rico, Haiti, Estados Unidos. A história guarda nossa história nesses quatro séculos e, hoje, convocados pelo Senegal livre, por nossa Mãe-África libertada, realizamos a ansiada viagem de volta. Desde cidades tentaculares como Nova York ou São Paulo, dos canaviais cubanos, dos bananais da América Central, dos cafezais colombianos, do fundo das minas, dos poços de petrolíferos, das usinas, ou dos mistérios da Bahia e Porto Príncipe, regressamos com nossas lágrimas e nosso riso. Enrijecidos na experiência de sangue, de força, de luta, de sofrimento - construímos um mundo novo, uma civilização nova -, comparecemos a esse 1º Festival Mundial das Artes Negras para confirmar nossa fidelidade às origens que estes quatro séculos de escravidão não conseguiram anular. Fomos negros ontem, somos negros hoje, seremos negros amanhã.
Nós, os negros brasileiros, artistas, poetas, intelectuais, músicos, nós, os exclusos fisicamente de Dacar, não nos sentimos ausentes. Em cada passo de dança que se executar no Festival, nós também estaremos dançando. Estaremos presentes em cada palpitação, na poesia e na música que se ouvir. Somos testemunhas oculares, pois nosso rosto está impresso para a eternidade nas máscaras que se exibirão. Somos a Negritude. E Negritude é a própria onipresença para aqueles que a assumem e a amam. Sobre as diferenças de idiomas, acima das distancias territoriais e das nacionalidades, os veios da diáspora, em movimentos concêntricos, se reintegram no grande mar escuro dessa mágica Negritude que nos manteve no espaço e no tempo unidos e irmãos."
Através deste texto de Abdias do Nascimento podemos conhecer um pouco do que foi uma das obras que Léopold Sédar Senghor idealizou para a posteridade da memória das civilizações negras no mundo.
*George Cardoso - jornalista, pós-graduando em "Estudos Africanos e Afro-brasileiros" pela PUC-Minas e Diretor de Comunicação do Centro Cultural Casa África
riscado por
GEORGE CARDOSO
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11:45 AM
Sexta-feira, Novembro 10, 2006
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d´Volta à Blogosfera...
Camarás,
Após 7 (meu número de sorte, conforme os astros ou não sei lá o quê) longos meses de letras distantes desse terreir´eletrônico, eis-me aqui, quase zumbi, quase egum, quase um...
Essa semana foi da porra, com o lançamento do catálogo do projeto Cultura Afro Nas Escolas (q lançarei assunto por´aqui depois), mas... bola pra frente!
É, a chuva fecha o dia na montanha cá nesse pedaço de Minas. Mas eu, q nasci à beira-mar, tô só perando o sol quará a paisagem... Pra ficar tudo jóia rara!
riscado por
GEORGE CARDOSO
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5:26 PM
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